• Queimar ônibus é um ato de vandalismo,
    onde os mais prejudicados são os passageiros

    Vivemos um momento único. Com avanço econômico, atenção internacional, realização de importantes eventos mundiais, e porque não dizer, com maior conscientização do que realmente queremos dos governos e da iniciativa privada, em busca de maior qualidade de vida. Queremos um país mais justo, uma política mais transparente. Precisamos de mais saúde, mais educação, mais segurança. Enfim, um futuro mais promissor, com o básico garantido para a maior parte da sociedade. Nesse aspecto, no que diz respeito às necessidades básicas da população, a mobilidade urbana está inserida plenamente e pressupõe um sistema de transportes mais efetivo para o cidadão.

    No sistema de transporte público de passageiros da região metropolitana do Rio de Janeiro a frota de ônibus é o principal pilar: atende diariamente a 4,9 milhões de passageiros, com uma frota de mais de 19 mil ônibus que percorrem cerca de 4,8 milhões de quilômetros por dia. É nesse cenário que iniciativas públicas e privadas vêm tornando realidade projetos que viabilizem um serviço com mais qualidade. Seja através da construção de novas vias como os BRTs e BRSs, seja com a ampliação e modernização das frotas e constante qualificação dos profissionais, todos estão empenhados para mudar a cara do transporte público de passageiros do nosso Estado. Mas, acontecimentos recentes, que fazem parte da história dos protestos sociais, são um dos maiores vilões contra essa mudança tão necessária para toda a sociedade.

  • Queimar ônibus não resolve

    Queimar ônibus não resolve os problemas sociais e ainda coloca em risco toda a população. Foi o que sentiu, tão próximo quanto o calor do veículo queimando, José Carlos Dias, motorista na Viação Nossa Senhora de Lourdes há mais de 15 anos, dos seus 24 de profissão. Na primeira semana do ano, ele teve seu ônibus queimado em um ato de vandalismo, na rua Ana Neri, na Mangueira, por volta das 19h, quando tinha cerca de 30 passageiros no veículo.

    Ônibus queimado em 05/01/2014 no (Local)
    Ônibus queimado na Rua Ana Neri
    (próximo a Mangueira) - 05/01/2014

    “Foi tudo muito rápido, quando eles entraram no ônibus gritando e tacando gasolina pelo chão eu não consegui nem ver os passageiros descerem e achei que eles iam tacar o fogo comigo dentro do carro. É assustador como todos ali estivemos tão próximos da morte, como tudo é tão rápido e como parece que a vida do ser humano não vale nada. Não desejo isso para ninguém no mundo, é uma sensação de desespero muito ruim”, desabafa José que nunca tinha vivido na pele uma situação que vem vitimando pessoas em todo o país, com uma frequência no mínimo assustadora.

    O principal aspecto nesses eventos é o desrespeito à vida humana com uma ação que não será responsável pelas mudanças que devem ser concretizadas em nosso país. A legitimidade da busca social por mudanças é queimada junto a todos os ônibus que, em chamas, deixam de atender à população, são palco de mortes em vão e interrompem a rotina de vida de milhares de pessoas, que de uma forma ou de outra, são afetadas negativamente por esses atos praticados por poucos extremamente inconsequentes.

  • Falta de respeito pela vida do outro

    “Quem não tem nada, principalmente quem não tem realmente respeito pela vida do outro, não se importa em queimar ônibus na rua, reivindicando não se sabe bem o quê. É uma tragédia no momento em que acontece e continua a ser uma ameaça a outras vidas até conseguirmos chegar com a carcaça queimada em um local seguro, na empresa”, explica o mecânico socorrista, há 34 anos trabalhando na Nossa Senhora de Lourdes, Juvenal Pereira que destaca a atenção mais do que redobrada que é necessária para transportar os veículos queimados até estarem em local seguro para que o trabalho com o que restou seja iniciado.

    Ônibus queimado em 14/08/2013 no (Local)
    Ônibus queimado na Comunidade
    Vila Cruzeiro - 14/08/2013

    A grande maioria dos ônibus queimados é perdida. Ônibus de transporte público de passageiros não têm seguro, as empresas seguradoras simplesmente não fazem em função dos custos. A cada evento em que um veículo é incendiado prejuízo ultrapassa os muros das empresas e afeta novamente o dia a dia do cidadão que deixa de ter mais um carro na frota que atende seu itinerário. “Substituir um ônibus queimado hoje representa um custo de mais de 300 mil reais, considerando todos os impactos do acontecimento. Em um período de cinco meses, o prejuízo da Lourdes com os ônibus queimados ultrapassou um milhão de reais”, explica o gerente de Manutenção da Viação Nossa Senhora de Lourdes, Rogério de Bem.

    Na empresa, o desafio tem sido tentar recuperar de forma efetiva os ônibus que foram danificados por atos de vandalismo e desrespeito à vida humana com os incêndios. Quando o ônibus queimado chega à garagem toda uma operação especial é programada. Os profissionais que deveriam estar focados em executar a manutenção diária da frota que atende à população precisam se dedicar a desmontar a carroceria e iniciar, quando viável, todo o trabalho de recuperação dos chassis. “Para não termos problema com a entrega das nossas equipes de profissionais, onde cada um é responsável por uma parte da manutenção preventiva e de segurança de toda a nossa frota, nós terceirizamos os trabalhos de desmonte das carrocerias queimadas”, lembra Rogério.

  • Renascendo para um novo uso

    Ônibus Museu
    Ônibus museu na festa de 50 anos

    Dos últimos ônibus queimados da Viação Nossa Senhora de Lourdes, um deles está ganhando um destino mais do que especial. Será transformado em um ônibus museu, que visitará bairros do Rio para levar a história do transporte público de passageiros e toda sua evolução para a população carioca.

    “Nossa ideia foi vencer essa batalha com iniciativas inovadoras como esta. Além de conseguir que outro chassi recuperado fosse transformado em ônibus para treinamento dos motoristas. O que queremos é poder mostrar com atitudes cada vez mais positivas que estamos junto com a população em busca de soluções efetivas para o transporte público de passageiros. Como empresário e cidadão preocupado com cada usuário que pode sofrer com esses atos, assim como minha família que mora na cidade e também se utiliza dos transportes públicos, estou determinado a fazer a minha parte contra esses atos que vêm banalizando a violência e fazendo vítimas em todo o nosso país”, explica Humberto Valente, presidente da Viação Nossa Senhora de Lourdes empresa que é a Líder do Consórcio Internorte de Transportes.

    A população carioca vinha se acostumando com uma rotina de maior sensação de segurança, nos últimos anos, com a implantação de uma nova política de Segurança Pública, a partir da criação das Unidades de Polícia Pacificadora em áreas que sofreram historicamente com a violência e a falta de presença do Estado. Infelizmente, o cenário atual vem contra tudo o que foi conquistado na história recente do Rio de Janeiro, vem contra tudo o que se pretende construir para que nosso estado possa receber de braços abertos o mundo inteiro que estará olhando para nós nos próximos eventos mundiais. E não só isso, queremos viver sem medo, sair com a certeza de voltar em segurança para nossos lares, com a certeza de que estamos construindo um futuro melhor para os serviços públicos da nossa cidade, que é o desejo de toda uma sociedade.

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